Entrevista: Otimizando a produção com o método Lean

Lean é basicamente tudo o que está relacionado à obtenção de materiais corretos, no local correto, na quantidade correta, minimizando o desperdício. Na indústria farmacêutica, a visão tradicional da gestão dos sistemas produtivos pode ser um desafio para a implantação da metodologia Lean, voltada para uma cultura de melhoria de processos. Regulamentações rigorosas e produtos que passam por diversas etapas de transformação até chegarem ao produto final podem ser os vilões nesse processo.

Os pontos-chave do lean manufacturing são:
Qualidade total imediata - ir em busca do "zero defeito" e solucionar os problemas em sua origem.
Minimização do desperdício - eliminação de todas as atividades que não têm valor agregado e otimização do uso dos recursos escassos (capital, pessoas e espaço).
Melhoria contínua - redução de custos, melhoria da qualidade, aumento da produtividade.
Processos "pull" - os produtos são retirados pelo cliente final, e não empurrados para o fim da cadeia de produção.
Flexibilidade - produzir rapidamente diferentes lotes de grande variedade de produtos, sem comprometer a eficiência devido a volumes menores de produção.

Nesta edição, conversamos com Márcio Moreti, presidente da Orange Pharma IT Solutions, sobre as vantagens do sistema Lean na indústria farmacêutica e os desafios vivenciados no dia a dia.*
FCE Pharma News: Quais os fatores críticos de sucesso da implantação do Lean na indústria farmacêutica? Quais as principais dificuldades encontradas pelas empresas para que o sistema prospere e atinja as metas esperadas?
Márcio Moreti: É necessário quebrar alguns paradigmas para que um projeto Lean tenha sucesso. Os líderes de uma empresa precisam enxergar, por exemplo, que não adianta produzir mais apenas para não deixar uma máquina parada, por exemplo. O modelo de custos tradicional contábil também é outro que leva a crer que produzir mais vai reduzir o custo unitário, o que é verdade, desde que toda essa produção seja vendida. Produzir mais apenas para aumentar os estoques cria a falsa ilusão de que o custo unitário caiu, quando por outro lado você está elevando seus estoques, demandando mais capital de giro, mais área de estocagem e por ai vai. Para uma implementação de Lean bem-sucedida é necessário muito treinamento para alterar a cultura dos líderes envolvidos. É preciso que uma equipe multidisciplinar esteja envolvida e que modelos de meritocracia sejam estabelecidos para reconhecer os resultados positivos da mudança.
FCE Pharma News: Quais os resultados/benefícios que o Lean pode trazer para a indústria?
Moreti: Como principais benefícios podemos destacar a redução significativa do lead-time de produção; redução dos inventários (work in process e produto terminado) em consequência da redução do lead-time e, consequentemente, redução da necessidade de capital de giro para suportar a operação; aumento do nível de serviço como consequência da redução do lead-time e da melhor conexão com a demanda; redução do risco de mix-up por ter fluxos melhor estabelecidos; redução efetiva do custo unitário; aumento de produtividade; redução de perdas e aumento do uso da capacidade instalada com poucos investimentos.
FCE Pharma News: Como disseminar essa cultura na empresa?
Moreti: Uma das principais barreiras a ser transposta para a criação e disseminação da cultura Lean nas empresas é eliminar a visão departamentalizada, migrando para uma visão baseada em fluxo. É necessário trazer de forma clara um entendimento dos objetivos da empresa para cada participante do fluxo produtivo. Todos devem entender de que forma o seu trabalho e suas escolhas vão afetar o resultado da companhia, e não apenas seu departamento. É comum que os departamentos tenham metas desconexas que por fim acabam por gerar alguns desperdícios, como superprodução ou esperas excessivas. No momento em que todos entendem que o objetivo final é transformar matéria-prima em produto acabado no menor tempo e custo possível, fica mais fácil entender o fluxo de valor e descartar os desperdícios. Essa transformação envolve atravessar diferentes departamentos e diferentes disciplinas (Recebimento, Amostragem, Controle de Qualidade, Armazenamento, Pesagem e Dispensação, Manipulação, Compressão, Embalagem, Armazenagem de Acabados, Expedição, além de áreas de apoio como, por exemplo, a Manutenção). São áreas distintas, com conhecimentos e tecnologias distintas, comandadas por chefes de departamentos com distintos paradigmas, mas que juntas compõem o fluxo de valor que transformará as matérias-primas em produtos acabados com valor agregado. É preciso que o chefe da pesagem, por exemplo, entenda que de nada adianta ele “bater a meta” de pesar 20 lotes por dia se os processos seguintes não comportarem processar esse material no mesmo ritmo. Isso só vai gerar mais WIP, demandar mais capital de giro e áreas de espera internas e não vai melhorar o resultado da companhia.
Desta forma, outro ponto importante é que os processos de meritocracia do RH precisam estar alinhados a esses objetivos. Um gerente de produção deveria receber seu bônus quando os pedidos dos clientes forem melhor atendidos (nível de serviço), aumentando assim o seu compromisso com o que realmente interessa, que é produzir o que o mercado está comprando, ao invés de, por exemplo, receber bônus por milhões de unidades produzidas por mês, o que o leva a executar campanhas de produção que muitas vezes vão elevar os estoques de determinado produto. Em outras palavras, o executivo da produção deveria ser bonificado pelo atendimento da demanda  (sem back order) e não pelos seus volumes de produção. Treinamento constante dos líderes, indicadores claros e objetivos, conexão inteligente entre os processos, bom gerenciamento do balanceamento, dos KanBans e do WiP, ferramentas de software que suportem o fluxo de informação e meritocracia alinhada são, na minha opinião, os principais pontos para criação da cultura.
FCE Pharma News: O quanto é relevante integrar o cliente nesse processo?
Moreti. É fundamental. O estudo da demanda real do cliente final é a base do Lean. É necessário ter capacidade produtiva para atender a demanda real (que é a do cliente final – consumidor -  não do distribuidor ou da farmácia). Outro ponto é desenvolver estratégias de amortização das variações e vendas entre indústria e distribuidor, na maioria das vezes causadas por politicas comerciais e desconexão da produção com as necessidades de mercado da variação real da demanda.
FCE Pharma News: Para a indústria que comporta diversas linhas de produtos, o Lean pode ter sucesso?
Moreti: Sim, inclusive os resultados tendem a ser maiores em empresas mais complexas do que nas mais simples. Uma das estratégias é reduzir a complexidade agrupando os produtos em famílias que compartilham os mesmos recursos de produção.
* Com participação de Ricardo Borgatti, da BBConsult