O MES/MOM como ferramenta de consolidação dos conceitos LEAN

Implementar conceitos de LEAN exige quebra de paradigmas, abertura para novos conhecimentos e disposição para sair da zona de conforto de todos os envolvidos no fluxo de valor e no processo de decisão de uma empresa, e isso é, sem dúvida, um grande desafio, que é na maioria das vezes transposto com maestria pelas melhores consultorias de excelência operacional existentes no mercado.

Mas como consolidar e institucionalizar tais conceitos, fazendo com que eles continuem vivos dentro da empresa depois de que a consultoria se foi?

Quando o assunto é implementação de software, sempre fui convicto de que ela deve ser feita como um meio para se alcançar um objetivo, e não um fim em si. Acredito invariavelmente de que os melhores resultados para a empresa provêm da reestruturação inteligente dos processos e não da pura e simples implantação de ferramentas de software, no entanto, quando as mudanças são materializadas em novos processos e estes suportados por ferramentas de software que os organizam e garantem sua repetitividade dentro dos parâmetros esperados, então temos uma solidificação dos conceitos dentro da empresa.

Tenho andado por inúmeras  indústrias farmacêuticas, no Brasil e no exterior, nacionais ou multinacionais, grandes e menores, e falando um pouco de software posso afirmar que é comum encontrar empresas que endeusam determinado software ao passo que outras criticam veementemente a mesma ferramenta. A conclusão que eu tiro disso é que não é a escolha da ferramenta em si que vai determinar o sucesso ou o fracasso da implementação mas sim a qualidade da própria implementação.

 Quando a implementação de uma ferramenta é realizada concomitantemente com mudanças inteligentes nos processos, alinhada com os objetivos estratégicos da compania e conduzida por um time multidisciplinar capaz de preparar e parametrizar o software para suportar tais mudanças, então ela será inevitavelmente um sucesso, entregará melhorias reais aos processos e ganhos no resultado da empresa, e neste caso usualmente o software carrega a fama de “trazer” tais ganhos. Ao contrário, quando acontece uma implementação malsucedida também recai sobre o software a fama de que ele não serve. 

Também tenho visto muitas iniciativas de melhoria baseados na implementação de conceitos LEAN nas indústrias farmacêuticas. Algumas delas mais tímidas e localizadas e outras mais arrojadas e abrangentes além de fortemente ligadas à estratégia da empresa. O que quase todas as iniciativas tem em comum é que elas são baseadas em intensivos treinamentos para conscientização do time e desenvolvimento do pensamento crítico nas pessoas, que ao entenderem as inúmeras possibilidades de ganhos em otimização que o LEAN pode trazer, passam a implementar conceitos em seus processos e a colher resultados. Porém, em geral, implementam tais conceitos baseados em controles manuais, e passam a utilizá-los em paralelo aos tradicionais sistemas informáticos que acompanham seu processo de produção e que, na imensa maioria das vezes, seguem presos aos próprios paradigmas, representando uma resistência à implementação dos novos modelos.

Nada contra os controles manuais, até porque, devo reconhecer, eles funcionam. O que não funciona é o paralelo com sistemas tradicionais empurrados. Haverá certamente um conflito.

 Nestes casos, as novas praticas são mantidas até quando forem mantidas as pessoas que compartilham do entendimento do conceito por trás das mesas. Conforme o turnover evolui na empresa os conceitos tendem a se dissipar. E é exatamente isso que acontece. Depois que a consultoria se vai, em pouco tempo, os conceitos aos poucos vão sendo perdidos e os ganhos que o LEAN havia trazido vão, aos poucos (e às vezes rapidamente), desaparecendo.

Já quando os novos conceitos são implantados junto de ferramentas que suportem simultaneamente a execução dos processos, substituindo as ferramentas tradicionais, então os ganhos se solidificam e perpetuam.

Não se trata de engessar os processos, mas sim de organizá-los para que sejam eficientemente executados e não regridam, para a partir daí dar próximo passo num processo de melhoria continua na busca pela excelência.

 Afirmo isso baseado em fatos concretos que vivenciei ao longo de minha carreira, liderando iniciativas em muitas das mais conhecidas indústrias farmacêuticas presentes na América Latina. Exemplo clássico foram as implementações de WMS alinhadas a mudanças de processos e de cultura, que eliminaram áreas de quarentena fisicamente segregadas e etiquetas amarelas e verdes, reduzindo diversos processos que não agregavam qualquer valor, como movimentações e etiquetagem desnecessárias. Na época eram processos mandatórios e inquestionáveis, foi preciso persistência na quebra do paradigma. Os novos processos foram implementados e suportados por ferramentas de software alinhadas com o novo modelo. O resultado foi a consolidação dos conceitos e consequente perpetuação.

A pura implementação da ferramenta de software sem mudança nos processos automatizaria a área de quarentena física e a emissão e colagem das etiquetas amarelas e verdes e não traria grande parte dos ganhos efetivos.Por outro lado, a implementação de mudanças nos processos sem o apoio das ferramentasde software poderia mostrar ganhos imediatos mas não se manteriam no médio prazo podendo até serem descartadas tão logo a consultoria e os patrocinadores internos deixassem a empresa.

Podemos portanto concluir que as grandes melhorias se fazem com mudanças baseada no pensamento crítico, focadas em agregar valor e eliminar desperdícios, e se consolidam com a implementação de ferramentas de software que suportam a execução correta e precisa dos processos com os novos conceitos, e dessa forma não resta qualquer dúvida de que os sistemas de execução e gerenciamento da manufatura (MES/MOM), quando implementados inteligentemente, tem e terão papel fundamental na consolidação dos conceitos LEAN e na perpetuação dos resultados.

Marcio Moreti

Sócio fundador e CEO da ORANGE Pharma IT Solutions, tem mais de 20 anos de experiência na indústria farmacêutica atuando em empresas como Novartis, ACTIVE e SIEMENS e liderando projetos inovadores em diversas indústrias na américa latina, entre elas 8 das 10 maiores indústrias em atividade na região.